O pastor mais rico do Brasil continua sendo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, com fortuna de R$ 5,6 bilhões (segundo Forbes/TV Foco, 2024), alimentada pela Rede Record, por templos em mais de 100 países, pela publicação de livros e por doações.
Em segundo lugar está Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, com R$ 1,1 bilhão (estimativa de 2024, baseada em US$ 220 milhões em 2013), graças ao televangelismo, a templos e campanhas de arrecadação.
R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, é o terceiro, com R$ 736 milhões (Forbes, 2024), alavancados pelo Programa Show da Fé, música gospel e mídia.
O quarto é Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, com R$ 250 milhões (2024), que reforça o patrimônio com eventos, livros, TV e palestras.
Estevam Hernandes Filho, da Igreja Renascer em Cristo, é o quinto, com valores entre R$ 125 milhões e R$ 250 milhões (2024), arrecadados com templos, música gospel e doações internacionais.

Não consta que seus milhões de fiéis tenham prosperado dessa forma. Nem os brasileiros da classe média para baixo de todas as religiões ou sem religião. No entanto, os fiéis se multiplicam mais do que os milagres bíblicos.O fenômeno completa cerca de 65 anos no Brasil.

Desde os anos 1960, o êxodo rural para as cidades criou comunidades isoladas nas periferias das grandes capitais, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro, onde igrejas evangélicas se instalaram rapidamente, oferecendo redes de apoio local e crescendo de forma avassaladora.
De 100 igrejas nos anos 1960 para mais de 60 mil em 2015, segundo o cientista político Victor Araújo, da Universidade de Zurique.
As igrejas preenchem lacunas deixadas pelo Estado, fornecem educação, alfabetização, tratamento para vícios, assistência psicológica, creches e ajuda financeira.
Isso atrai especialmente os pobres e vulneráveis, como destacam os antropólogos Juliano Spyer e Jacqueline Teixeira (USP), que apontam o papel das igrejas como “âncora social” em favelas e regiões carentes.

Cultos dinâmicos, música gospel contemporânea (rap, funk, sertanejo), ênfase em experiências espirituais (como curas e profecias no pentecostalismo) e promessas de “mudança de vida” apelam a jovens e mulheres em contextos de crise. A teologia da prosperidade, que liga fé a sucesso material, ressoa em sociedades meritocráticas, segundo o historiador Andrew Chesnut.
Missionários, proselitismo agressivo, uso de TV (como a Record, da Igreja Universal), redes sociais e templos em expansão (17 novos por dia em 2019, segundo estudo da USP) aceleram conversões. O crescimento é maior entre negros e pardos (55,6% dos evangélicos).
A Igreja Católica perdeu terreno por rigidez e menor engajamento periférico; já os evangélicos ganham com mobilização eleitoral e pautas conservadoras (família, antiaborto), mas a politização recente afasta moderados, segundo Teixeira.

política entrou nos templos evangélicos em 1989. O então candidato presidencial, Fernando Collor, buscou apoio de Edir Macedo, que concordou em transformar seus fiéis em curral eleitoral com uma condição: ele rezaria, no dia da posse, um culto evangélico.
Collor não cumpriu a promessa, mas abriu as portas do Palácio do Planalto e da política. No dia da posse, o amigo que acompanhava Edir na cerimônia estranhou quando ele descalçou os sapatos em pleno salão do Palácio do Planalto.
“Estão apertando?”, preocupou-se o amigo.
Só de meias pretas bem finas, Edir respondeu:
“É preciso pisar com os pés o solo que se pretende conquistar”.

À Presidência ele não chegou ainda, mas seu Partido Republicano, fundado em 2005, já é o décimo primeiro maior do país. Tem a presidência da Câmara dos Deputados, com Hugo Motta (segundo na linha de sucessão presidencial); o governador do maior estado, Tarcísio de Freitas; 600 mil filiados, 433 prefeitos, 41 deputados federais e 4 senadores.

O crescimento dos evangélicos está intimamente ligado à situação social precária. Em países pobres, eles crescem 2,6% ao ano e chegam a 30% da população em muitos deles. Nove dos dez países com mais evangélicos estão no Sul Global.
No polo oposto, os pastores evangélicos estão entre as autoridades religiosas mais ricas. Não consta haver rabinos, padres ou chefes de outras crenças com fortunas semelhantes.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

0 Comentários